Monday, June 29, 2009

recado para Oscar / message to Oscar


o telefone tocou no meio da noite e ele atendeu rapidamente, saltando da cama como se um século não pesasse nos ombros nem nas pernas. Do outro lado da linha uma voz conhecida mas que ele não ouvia a mais de 15 anos.
- Oscar?
- Sim, sou eu, quem fala?
- É o Roberto, Roberto Burle Marx. Quanto tempo hein Oscar? Nunca pensei que ia demorar tanto pra você vir pra cá. Olha, desculpa o mau jeito de te ligar assim no meio da noite. É que essas conversas só funcionam quando vocês vivos estão meio dormindo meio acordados. Olha Oscar, nós andamos conversando muito sobre você nos últimos anos. Impressionante como os anos passam depressa aqui, acho que diante da eternidade tudo fica minúsculo..... mas sobre isso a gente conversa depois quando você chegar. O Lucio foi contra, acha que você não vai ouvir, mas o resto do pessoal me pediu pra te dar o recado. É o seguinte, nós estamos todos preocupados com o que você anda fazendo atualmente. Cada prédio mal detalhado, mal construído. Para Oscar. Para e vai curtir as homenagens que você merece. Vai desenhar suas mulheres curvilíneas e para de desenhar esses prédios com curvas sem sentido. Se for por dinheiro arruma um jeito de vender seus desenhos. O Corbusier fez isso quando viu que seus projetos já não tinham a mesma força. Eu também passei a pintar mais e projetar menos quando percebi que os jardins já não saiam com a mesma vivacidade. E com esses prédios sem graça você está arruinando a sua biografia Oscar. Aquele moço do New York Times escreve muita bobagem mas acertou na mosca em 2007 quando disse que você estava vivendo o suficiente para estragar sua própria obra. O Charles Moore ficou muito meu amigo (não sei como não o conheci antes, um amor o Charles) e sempre fala do arrependimento de fazer aquela Piazza di Italia em New Orleans. Uma pracinha a menos e a obra do Charles ficaria muito mais íntegra. Você já acumula uma dezena de “piazzas” Oscar e ainda quer fazer uma grande bem no meio do eixo monumental! Já não basta enfiar um auditório no meio da Casa do Baile, aquela biblioteca sem livros em Brasília ou esse Centro Administrativo no caminho de Confins. Aliás, passa em Confins pra você lembrar a beleza do detalhamento do Milton. Se você ainda tivesse gente como o Milton ou o Lelé pra detalhar seus esboços.... Você não precisa disso Oscar, já é de longe o mais importante arquiteto das Américas no século XX (o Frank tá aqui resmungando mas pra começar ele nasceu no século XIX). Desenhe Oscar. Escreva Oscar. Esse negócio de arquitetura dá trabalho demais e quando feito as pressas fica muito ruim. Olha, tá todo mundo mandando um abraço e dizendo pra você demorar bastante. Na verdade a gente morre de inveja da sua longevidade (e alguns do seu talento).

algum tempo depois ele acordou e foi se vestir. Ia receber muita gente no escritório para mostrar mais um projeto (desenhado ontem) para mais um político enraizado nas idéias e nas formas do século passado.




the phone ringed in the middle of the night and he got it quickly, jumping out of the bed as if a century had no weigh. On the other side a voice that he knew from years ago.
- Oscar?
- Yes, that’s me, who’s that?
- It’s me, Roberto, Roberto Burle Marx. Long time no see. I never thought it would take so long for you to join us. Please forgive me the bad timing, in the middle of the night. We can only reach live people when you are half awake and half asleep. Oscar, we have been talking a lot about you in recent years. Amazing how the years go fast here, I think that in the face of eternity everything becomes so tiny ..... but we can talk about it later when you to arrive. Lucio did not agree, he believes (probably correctly) that you hear nobody. But all the others insisted that I should call you. Here’s the thing: we are all worried about what you are building nowadays. Poorly detailed, poorly constructed. Stop Oscar. Enjoy the honors that you deserve. Go back to drawing your curvilinear women and stops drawing building with meaningless curves. If it is for the money you can make a good living with your drawings. Corbusier did that and I also started painting more when I perceived that the gardens didn’t have the same vivacity as before. Those tasteless buildings are ruining your biography Oscar. That boy from the New York Times was correct in 2007 when he said that you lived long enough to ruin your own work. Charles Moore is also here and he is my best friend now - I don’t know why I never met him before - always talking about how much he regrets that Piazza di Italia in New Orleans. A single small piazza taints Charles biography and you have already accumulate half a dozen “piazzas” Oscar. Why put an auditorium inside Casa do Baile? Why build an empty library in Brasilia? Why this monster administrative center close to Confins airport? By the way, go back to Confins to see the elegant detailing that Milton designed. If only you still had people such as Milton or Lelé to detail your sketches…. You don’t need this Oscar. You are already the most important architect of Americas in the 20th century (Frank is screaming here but for a start he was born in the 19th century). Go draw Oscar. Go write Oscar. This business of architecture is too complicated and when done in a hurry it looks awful. Everybody here says hello and tell you to stay alive as much as possible (everybody envies your longevity and some envy your talent too).

some time later he woke up. Later in the day he would have a lot of people in the office to show a project, drawn yesterday, to one more politician rooted in the ideas and the forms of the previous century.

Monday, June 22, 2009

pontos cegos / blind spots

comecei e não consigo parar de ler o excelente “Carradas de razões”, obra de Otavio Leonídio sobre Lucio Costa. Como bom modernista que sou a vida e a obra do Dr. Lucio são fundamentais para se entender o Brasil de hoje, na arquitetura, no urbanismo e na questão do patrimônio. E o livro de Leonídio (resultado de sua tese de doutorado) é de longe o melhor texto que já li sobre aquele que foi o mentor intelectual da arquitetura brasileira do século XX. Indo direto nas fontes primárias como bom trabalho de historiografia que é, o livro traz a tona componentes essenciais para se montar (e desmontar) nossas narrativas da modernidade.

mas o que me chamou muito a atenção, saindo um pouco da questão arquitetônica, foi a linguagem tantas vezes pejorativa e preconceituosa usada pelos arquitetos no início do século passado. Marianno Filho, médico e mentor do neo-colonial, usa a expressão “judaísmo internacional” para se referir às vanguardas européias (ou talvez numa alusão direta a Gregori Warchavchik). Católico fervoroso, Marianno Filho confunde a idéia de nação com a religião majoritária no país, esquecendo-se que desde 1889 estado e igreja estavam devidamente separados no Brasil.

ainda mais estarrecedor é ler o próprio Lucio, intelectual refinado e elegante escrevendo em 1928 que: “toda arquitetura é uma questão de raça. Enquanto nosso povo for esta coisa exótica que vemos pelas ruas a nossa arquitetura será forçosamente uma coisa exótica. Não é essa meia dúzia que viaja e se veste na rue de La Paix, mas essa mutidão anônima que toma trens da central e da Leopoldina, gente de caras lívidas, que nos envergonha por toda parte.”

agora sou eu quem fica envergonhado de ter como herói arquitetônico o mesmo Lucio Costa que escreveu as linhas acima. Pode-se justificar que isso veio do alto de seus 26 anos de idade ou que, na época, ainda estava ligado ao neo-colonial de Marianno Filho e portanto na contra-mão há história. É fácil demonizar Marianno Filho e seu combate quixotesco contra a arquitetura moderna mas o fato é que são ambos argumentos racistas e preconceituosos.

o que me faz perguntar quais seriam os argumentos, hoje dados como aceitáveis, que causarão náusea a nossos leitores daqui a meio século ou século inteiro?

quais são hoje nossos pontos cegos?



I started and I can’t stop reading the excellent “Carradas de Razão”, by Otavio Leonídio about the work of Lucio Costa. Being myself a confessed modernist, Dr. Lucio is fundamental to understand contemporary Brazilian architecture, urbanism and preservation. And Leonídio’s book (his phd dissertation) is by far the best text I have read on the man who was the intellectual mentor of Brazilian 20th century architecture. Based on primary sources as it should be, the book brings to light many components that are essential to assemble (and disassemble) our narratives of modernity.


but what called my attention very, if I may leave architecture aside for a moment, was the pejorative and prejudiced language used by the architects at the beginning of the last century. Marianno Filho, a medical doctor who was the mentor of the neo-colonial movement in Brazil, uses the expression “international Judaism” to referring to the European avant-gardes (or perhaps a direct attack on Gregori Warchavchik). A devoted catholic, Marianno Filho confuses the idea of nation with its main religion, deliberately forgetting that since 1889 state and church they were duly separate in Brazil.

even more astonishing it is to read the Lucio Costa himself, a refined and elegant intellectual, writing in 1928 that: “all architecture is a matter of race. As long as our people are this exotic thing that we see in the streets our architecture will be forcibly an exotic thing. It is not about half dozen that travel and dresses at rue de la Paix, but the anonymous crowd that uses the trains, people of livid faces that are a shame to us all.”

now I am the one ashamed of those words written by Costa in 1928. One might say that he was only 26 years old and still affiliated with the neo-colonial movement of Marianno Filho and therefore lost in history. It is easy to demonize Marianno Filho and his frivolous combat against modern architecture but the fact is that both arguments are racist and filled with prejudice.

it is hard to believe that Costa, such a hero to Brazilian architects, could be so wrong. But the question we need to ask is what kind of arguments, acceptable today, will make the readers of the next century sick to their stomachs?

which are our blind spots?

Monday, June 15, 2009

presentes de aniversário / birthday presents






este blog sai hoje um pouco dos assuntos arquitetônicos mais sérios para narrar uma série de encontros e acontecimentos que fizeram dos últimos quatro dias um contínuo e delicioso presente de aniversário pra mim.

a começar pela nossa sessão na LASA que me levou ao Rio na quinta-feira onde ótimas conversas com Ruth Verde Zein e Stella Nair se juntaram a aquele espírito de discussão (e festa) que é marca do congresso. Ainda na quinta teve encontro de blogueiros com Idelber do Biscoito, Ana Paula do Urbanamente e a divertidíssima Helê das Duas Fridas, entre outros.

na sexta voltei a um dos lugares mais fantásticos que eu conheço: o sítio de Roberto Burle Marx em Guaratiba. Diante da pérgula (foto), um espaço que sempre me emociona, dá vontade de se curvar e fazer uma louvação ao encontro genial do concreto com a natureza, síntese da Arquitetura Moderna Brasileira. No sábado, arrematando a viagem ao Rio, fiz uma corrida boa em Ipanema e minha querida amiga Flávia Oliveira me levou para comer bacalhau com Otávio Leonídio e Ana Luiza Nobre, de quem eu já era leitor entusiasmado e adorei conhecer pessoalmente. Monica Rocio, quem eu não via a 15 anos ainda me levou no Galeão.

o Rio, lindo como sempre, me deixa muito a vontade e reafirma a cada visita a velha idéia de que o destino dos melhores mineiros passa pela Guanabara.

de volta a BH no domingo tive um delicioso aniversário em família e os deuses da bola me presentearam com o Galo na liderança, Cruzeiro perdendo e o Flamengo destroçado com ajuda de seu goleiro falastrão.

assim só me resta agradecer tanto carinho e tantos presentes.

ps: chegou mais um presente em 16/6



this blog will divert from serious architectural discussions today to talk about a series of meetings and events that turned the last four days into a continuous birthday present to me.

starting with our session at LASA that brought me to Rio de Janeiro on Thursday and into excellent conversations with Ruth Verde Zein and Stella Nair, adding to the festive spirit of Latin American Studies. Also on Thursday a congregation of Brazilian bloggers with Idelber, Ana Paula and Helê, among others.

on Friday, I revisited one of the most sacred spaces I know: Robert Burle Marx estate in Guaratiba. Under this pergola (photo), a space that always touches me, one thinks of getting down to the knee to prais the brilliant blending of concrete and nature, almost a synthesis of Brazilian Modern Architecture. On Saturday, summing up a fantastic trip, I run 5 miles in Ipanema before and my dear friend Flávia Oliveira took me to lunch with Otávio Leonídio and Ana Noble Luiza, two of the best scholars on Brazilian architecture whom I had already read many times. Rio, as enchanting as always, reaffirms to me with each visit why so many of the best from Minas Gerais moved there.

back to Belo on Sunday I had a comfortable birthday party surrounded by the loved ones while the soccer Gods wrapped up my 38th year with Atletico as a leader, Cruzeiro and Flamengo suffering scorching defeats.

I can only be thankful to so much affection and so many gifts.

ps: one more gift arrived on 6/16

Monday, June 8, 2009

andando para trás / moving backwards







chegando a Belo Horizonte esta semana me deparei com esse elefante branco projetado pelo centenário Niemeyer que servirá de centro administrativo do estado. Nada mais século 20 do que esses edifícios monumentais, umas curvas simplórias no auditório, prateleiras em curva formando dois prédios enormes, um projeto difícil de engolir se viesse dos traços de um aluno de primeiro ano de arquitetura. Vindo do nosso maior arquiteto é mesmo uma vergonha. Dizem os que trabalham na obra que não havia nenhuma forma de compatibilização entre os vários projetos, erros primários relativos a insolação, absoluta ausência de detalhes. Isso na a maior obra do governo do estado projetado pelo mais famoso arquiteto brasileiro é triste, muito triste. Pra não falar na oportunidade perdida. Com o centro da cidade esvaziado, as secretarias e autarquias estaduais poderiam ter se instalado em dezenas de edifícios que estão sub-ocupados, injetando vida e recursos numa área que apesar de suas belezas está condenada ao abandono. Daria mais trabalho, sim, e provavelmente o orçamento para reformar vários edifícios com mais de 50 anos de uso seria quase o mesmo da obra em andamento. Mas seria o tipo de intervenção que pede o século que se inicia. Niemeyer teve seu momento nos anos 40 e 50 quando ele era um dos melhores do mundo e seus contratantes tinham uma visão apontada para o futuro. Hoje, ao contrário, seus projetos são completamente anacrônicos e construí-los aponta para o passado.




arriving in Belo Horizonte this week I found this white elephant designed by our centennial Niemeyer that will house the administrative center for the state government of Minas Gerais. Nothing could be more 20th century than those monumental buildings, simplistic curves on the auditorium, stacks of slightly curved floors making two enormous structures. A composition that would be considered poor if it were presented by a 1st year student. Coming from our most famous architect is just a shame. People who work in the construction reported that there were no compatibility between the different sets of drawings, basic mistakes regarding solar orientation and absolutely no detailing. Not to mention that the location of this enormous complex is in itself a huge missed opportunity. With downtown quite empty, the state government branches could occupy dozens of buildings that are now mostly idle. It would probably be more troublesome and the budget to renovate many 50-year-old buildings would be about the same. But it would be a intervention worthy of its time. Niemeyer had his moment in the 1940s and 50s when he was among the best in the world and his clients had a view towards the future. Today, unfortunately, his designs are extemporaneous and to build them points to the past.

Monday, June 1, 2009

global apartments book

esta semana marca o lançamento de mais um livro, desta vez uma produção do grupo de pesquisa que liderei em Michigan. O Global Apartments Research Group surgiu da convergência de vários interesses. Eu queria aprender sobre apartamentos em diferentes partes do planeta e os alunos que vinham de diferentes países estavam empolgados por finalmente encontrarem um professor interessado no ambiente construído contemporâneo de seus países de origem. Durante quatro anos nos reunimos duas vezes ao mês durante o calendário acadêmico para discutir edifícios multi-familiares em 13 países diferentes (Brasil, Costa-Rica, Índia, México, Egito, Finlândia, Itália, Coréia do Sul, Rússia, Alemanha, Estados Unidos, Turquia e Japão.


juntos aprendemos que os apartamentos são na realidade muito semelhantes, apesar de serem construídos em diferentes partes do mundo e de abrigarem famílias tão diversas quanto as brasileiras, egípcias e coreanas. Em 2006, uma bolsa do Office for the Vice President for Research (OVPR) da Universidade de Michigan possibilitou que eu organizasse esses dados de uma forma mais produtiva e promovesse o trabalho de alunos na análise de dados, alguns dos quais transformaram-se em capítulos para este livro.



o objetivo principal foi investigar o grau de semelhança entre esses edifícios, ou se as semelhanças são mais visuais do que sensoriais. A idéia inicial é que embora as fachadas desses edifícios aparentem ser relacionadas, as práticas habitacionais mais tradicionais ainda prevalecem na maneira como as pessoas se apropriam desses espaços. O livro pretende então investigar os meios e as maneiras como esses espaços modernistas (tão semelhantes) são usados em diferentes culturas (tão diversas).



com o transcorrer do século XX, a habitação nas áreas urbanas se homogeneizou dramaticamente ao redor do mundo. Os edifícios residenciais de São Paulo são hoje muito semelhantes aos de Seul, Moscou e Chicago. O livro lançado esta semana reúne trabalhos de vários alunos e colegas que são referência para o grupo de pesquisa que eu dirigi em Michigan entre 2004 e 2009.



o livro está disponível aqui na versão impressa (U$ 15.97) ou download (U$ 1.99)





this week marks the arrival of another publication, this one organized by the research group I led in Michigan. The Global Apartments Research Group was born from this convergence of interests. I was very curious to learn about apartments in different parts of the planet and many international students were excited that, at last, a professor was interested in the contemporary built environment of their native lands. For 4 years (2005-2009) we met regularly (twice a month for most of the academic year) and discussed multi-family housing solutions in 13 different countries (Brazil, Costa-Rica, India, Mexico, Egypt, Finland, Italy, South Korea, Russia, Germany, US, Turkey, Japan).


together we learned that the apartments are indeed very similar, despite being built in opposing parts of the world and housing families as diverse as Brazilians, Egyptians or Koreans. In 2006 a grant from Michigan’s Office for the Vice President for Research (OVPR) allowed me to organize the data collection in a more productive way and support student summer work on analyzing parts of the data, some of which became chapters in this book.


the main goal was to investigate the extent to which those buildings are or are not alike, or whether the similarities are more visual than experiential. The idea is that, although apparently related on the façade, more traditional ways of inhabiting still prevail in the way people appropriate these spaces. The book then investigates the means and the forms by which those modernist spaces (so comparable) are appropriated by local cultures (so diverse).


as the 20th Century progressed, urban housing became quite homogenized throughout the world. Apartment buildings in Sao Paulo are very similar to those in Seoul, Moscow, and even Chicago. It is clear that the modernist architectural vocabulary made famous by the so-called “International style” has gone much beyond corporation identity buildings and prevails in the housing sector in most of the urbanized world.


the book is available here in print form (15.97) and download (1.99)

Monday, May 25, 2009

goodbye ann arbor


uma certa nostalgia me invade no momento em que escrevo aquele que será o ultimo post de Ann Arbor. Foram 10 anos por aqui, entre 1996 e 2000 e agora entre 2004 e 2009. No final da semana que vem vamos pra praia, depois os dois meses de sempre em BH e quando voltarmos no início de agosto estaremos de casa nova na Universidade do Texas em Austin.


tive vontade de escrever sobre o que aprendi em Michigan mas cá estou na minha sala entre pilhas de papel a serem descartados e livros a serem encaixotados. Entre tanta matéria fico pensando mesmo é no imaterial. O que vivi e aprendi em uma década aqui é difícil de traduzir em palavras, cada vez que tento terminar este parágrafo me vejo abandonando o teclado para colocar o livro X na caixa Y ou salvar um papel qualquer da sina de ser reciclado.
mas acho que existe aqui um rigor no trato da arquitetura que espero carregar comigo. Os studios funcionam 24 horas por dia, 7 dias por semana, de setembro a abril, direto. As longas horas na prancheta, no computador ou no corredor das reviews (CMYK para os íntimos) fazem com que tenhamos todos, alunos e professores, um compromisso com a arquitetura que eu nunca experimentei em outras escolas onde estudei ou dei aulas.


e ainda a crença de que a pesquisa e o projeto são duas faces da arquitetura, muitas vezes opostas como numa moeda mas basicamente inseparáveis.


mas acima de tudo levo comigo a lembrança de muita gente bacana com quem convivi nesses anos todos. Gente que veio daqui de perto ou da China, da Índia, da Rússia, da Tailândia, do Egito, do México, da Suíça, da Argentina, da Alemanha, da Nigéria. Gente que importa como diz nosso centenário Oscar.


ps: ainda sobre o muro em torno das favelas no Rio, porque não murar também aqui e aqui?



a certain nostalgia invades me at the moment at that I write my very last post from Ann Arbor. It has been 10 years total, 1996 - 2000 and now from 2004 until this week, when we will pack the house, take off to the beach, and arrive in Belo for 2 month there. At the beginning of August, back in the US, we will be in a new house at the University of the Texas at Austin.


I thought of writing about what I learned in Michigan but here I am, in my office, between stacks of papers to be discarded and books to be boxed. Among so much matter that doesn’t really matter, I am thinking about the immaterial that I carry with me. What I experienced and learned in one decade here is difficult to put in words, each time I try to finish this paragraph I see myself abandoning the keyboard to place some book in some box or to save a paper from the recycling bin.


I should then write about the rigorous way in which architecture is dealt with here, something that I hope to carry with me. The studios operate 24 / 7 from September to April. The long hours at the drawing board, at the computer or in the review corridor (a.k.a. CMYK) make us all, students and faculty, extremely committed to architecture in a way that I have never seen in any other school I taught before. On top of that there is the belief that research and design are two faces of the same architecture, often opposing one another as in a coin, but basically inseparable.
but above all I take with me the memories of so many people with whom I had the pleasure to work here: people from around the corner or from China, India, Russia, Thailand, Egypt, Mexico, Switzerland, Argentina, Germany, Nigéria….. people that really matter as our centennial Oscar would say.

Monday, May 18, 2009

zumthor e moore

este post vai sair meio estranho porque a idéia é misturar Peter Zumthor com Charles Moore mas vamos ver se eu consigo explicar tal casamento.

estive no Texas na semana passada nas bancas finais da Universidade do Texas at Austin e no avião fui lendo o livro novo de Peter Zumthor que comprei meses atrás (antes do Pritzker vale dizer) e não tive tempo de ler antes do final do semestre. O texto é interessante, não tão refinado quanto seus edifícios e às vezes cheio de “verdades” meio subjetivas demais pra mim.

mas logo no início uma frase chamou a minha atenção e ficou gravada na minha cabeça. Zumthor escreve que são muito poucos os problemas arquitetônicos que ainda não foram solucionados, e continua afirmando que infelizmente a maioria dos arquitetos insiste em re-inventar soluções a cada projeto e com isso acabam atrasando o desenvolvimento da arquitetura.

pensei nisso durante os 3 dias em Austin e principalmente na quinta a noite quando a escola fez sua recepção de fim de ano na casa que Charles Moore construiu quando deu aula lá. Não sei se foi pelo ambiente descontraído e divertido da festa, pelo número elevado de colegas falando meu português ou pela casa em si mas o espaço parecia perfeito para uma festa. Dois pavilhões dispostos em L em volta de uma pequena piscina e com a articulação entre eles coberta do sol que ainda brilhava as 7 da noite mas aberta e ventilada. Dentro dos pavilhões o pé-direito varia de acordo com o programa e as cores, sempre muito fortes, dão o tom descontraído da casa.
em resumo, eu acho que os pós-modernos erraram na dose e acabaram jogando fora algumas das melhores características do modernismo. Mas quase sempre acertaram em serem modestos usando soluções consagradas para vários dos problemas arquitetônicos deixando de lado a obsessão vanguardista de reinvenção constante




this post will be a bit strange because the idea is to mix Peter Zumthor with Charles Moore but let me try to explain such weird marriage.

I was in Austin last week for the final reviews at the University of the Texas and used the airplane time to read Peter Zumthor’s new book which I bought months ago (before the Pritzker I should to say) and did not have time to read before the end of the academic term. The text is interesting, not as refined as his buildings and often times full of “subjective truths”.

but at the very beginning a phrase caught my attention and was stuck in my head. Zumthor writes that there are very few architectural problems that have not yet been solved, and continues explaining that unfortunately the majority of architects insists on re-inventing solutions to each project and the result is a delay in architecture’s collective development.

I thought about this during the 3 days in Austin and mainly on Thursday night when the school hold its end of year reception in the house that Charles Moore built when he taught there. I don’t know if it was for the relaxed environment, for the high number of colleagues speaking my Portuguese, or for the house in itself but the space seemed perfect for a party. Two pavilions in L around a small swimming pool connected by a covered open porch. Inside the pavilions the ceiling height varies in accordance with the program and the colors, always very strong, dictate the exciting tone of the house.

in summary, the post-modernists might have been wrong on the dosage and discarded many of the best modernist features. But they were almost always right in being modest and using consecrated solutions for several architectural problems, leaving behind the avant-garde obsession with constant re-invention.